março 23, 2011

VETADO

Há dias em que gostaria de me ver e sentir completamente ordinária de mim. Sem pudor ou considerações que apenas mutilam o que é naturalmente bom. O prazer. Prazer de sentir, de querer, de consumir. O cheiro, o gosto, alimentar os olhos com o que mais tarde vai ser guardado para o longo dos dias no meu mural de segredos Ah! como gostaria de ter você agora. Eu seria como uma personagem qualquer desses contos que alguns acreditam ser indecente, embora na verdade sejam simplesmente verdadeiros, pouco poupado em termos descritos, mas tão pulsantes na carne. Ah! como adoraria vestir-me de ti. Abraçar, misturar-me no teus poros, transpirar minha boca no teu corpo. Queria dizer-me tua. Muda nos instantes que nos separam, cega nos encontros que nos surpreendem. Ordinária. Invejavelmente ordinária

março 19, 2011

Confessionário

Não tive coragem de dizer. Me senti culpada. Talvez pela covardia ardida de já me condenar pelos princípios dos quais em nem sei bem se compartilho e aceito.
O pecado existe quando se pensa, deseja ou realiza?
E para quem regrou os tais princípios, os experimentou a troca de sabe-los?
Se o que importa é a alma, porque o corpo paga pelas contradições nesses castigos?
Não quis desejar a tua ideia, nem teus dias, imaginei só a tua pele, a tua massa. Perdão. Exagerei quando pensei em te sentir muitas vezes. Não nos dias, só nas horas, algumas delas. Quem dera, horas silenciosas, de frases inteiras apenas com movimentos completos.
Confesso, minha culpa cresce. E quanto mais ela cresce maior é o meu arrepio, minha sede.
Meu cigarro te desenha.
Meu cálice me condena e o que não confesso, me respira.

Ranhuras

As sinto quando passo a mão pelas lembranças da sala do pensar. Quando caminhando entre as mobilias, revivo seus detalhes, imagens que compuseram lindos cenários, nos meus dias. Gavetas ainda com aromas papel de bala, frascos de perfumes vazios, petálas já desidratadas, coisas que representaram muito.

E, aquela fotografia quase desbotada. Por alguns instantes meu peito e olhar congelaram. Nesta sala do pensar, o silêncio é quase obceno.Quando atravesso essa sala, sinto saudade. Sinto falta, na verdade falta e saudade, sempre. Daquela mobilia tua, sobre o piso da minha sala, do quarto, da casa. Nas paredes, só as ranhuras. As minhas, as tuas.

março 14, 2011

Guerrilha

Se vier a mim, que seja como quem se obstina.
Se vier a mim, que sua decisão seja  forte como seu desejo.
Se vier  a mim, ao me sentir em ti, tenha pulso para comandar o sangue, calor para aquecer o corpo e certeza, para não ficar no vazio.
Se vier  a mim, que seja lépido e certeiro, reconheça com perspicácia e aja com astúcia de um homem.
Se vier a mim, me olhe nos olhos, derrube meus muros, asfalte meus caminhos, me torne sua.
Se vier a mim, não me sinta como só uma amante.
Se vier  a mim, se encontre. Junte-se.
Se vier a mim, não desafie mais do que se impõe
Se vier a mim, venha nú.
Selvagem.

março 13, 2011

Seu título, em segredo

Da língua, os círculos dentro da boca, que misturam a saliva com as palavras e, cabe ao corpo dizer das sensações que os pensamentos definem, quando no teu abraço, me contrai. Só o silêncio blinda os ouvidos. Nem há muito mais o que dizer, porque tudo é imenso, espremido num  único desejo de explodir. Guarde este pequeno trecho como  sendo seu. Seu  instante de cruel verdade. Meu maior momento diante dessa memória que me alimenta de você, ainda que eu não tenha fome, apenas necessidade de comer, é quando as línguas trancadas, secas, desviaram para os olhos um olhar só meu.

março 07, 2011

Tantas coisas

Acredito em tantas coisas. Acredito até na existência vazia de não se acreditar. Aliás, pensando bem, o que existe na verdade é o que acreditamos ver,ter,sentir. Quando isso passa, a verdade também passa. Não,não vira mentira, apenas passa. Nasce outra em seu lugar. As vezes  leio coisas que me incendeiam. Mas são minhas, somente minhas as verdades que acredito, até nas vazias. Minhas próprias verdades  vazias. Viver algo que não é seu é como brincar com fantasmas. Fantasmas são companhias vazias, e eu acredito nelas também. Acredito em tantas coisas.

fevereiro 28, 2011

Alfabeto Cirilico

É assim que sinto o que não sei  compreender, quanto mais  traduzir. Há incoerência de gestos e palavras nas sensações que invadem e regorjitam da alma. O silêncio pode sufocar e matar também. Confuso é todo aquele que teme  avançar, ainda que passo a passo, desafiando a  confortável condição de não ser nada. O vão pode ser tão maior que a claridade.Quando boa parte das pessoas suam para alcançar o que quase nunca tem fim, outros se saciam em apenas transpor aquele fio de rio,  seco, como se  ali houvesse um oceano. Não sei dizer sobre sentimentos tanto quanto gostaria. Mas quando os sinto, singulares e isoladamente em suas  harmonias de alegrar e machucar, sei que quanto mais perto chego de dize-los , mais tenho que beber de todas as suas outras formas de composição. Ser do ácido o azedo, do amargo o doce. A verdade é que,  o complicado está justamente na maneira que encaramos. O desconhecido é sempre um obstáculo. Neste alfabeto que ainda estou estudando, descobri que tudo pode ser sentido, sem talvez, ser explicado e compreendido.

Instigante... é sobre desvendar o perigo imaginar o gosto  o poder da persuasão ao movimentar o corpo  pulsar, trocar de lado, de ato, sobre...